A banalização da vida e a normalização da barbárie no contexto do caso Daiane Alves Souza em Caldas Novas, Goiás
Temístocles
Telmo[1]
A moradora e corretora de imóveis Daiane Alves Souza,
de 43 anos, desapareceu no dia 17 de dezembro de 2025, no Condomínio
Amethist Tower, na cidade de Caldas Novas, estado de Goiás. Câmeras
do prédio a registraram descendo ao subsolo do edifício para verificar uma
suposta falta de energia em seu apartamento, que exibia ausência de luz
enquanto elevadores e áreas comuns estavam iluminados, o que levantou a
suspeita de desligamento proposital da energia. Desde então, ela não foi
vista novamente por familiares ou vizinhos.
No decorrer da investigação, o Ministério Público do
Estado de Goiás (MP-GO) ofereceu, em janeiro de 2026, denúncia
criminal contra o síndico do condomínio, Cléber Rosa de Oliveira, pelo crime
de perseguição (stalking), previsto no artigo 147-A do Código Penal, com
alegações de condutas reiteradas que ameaçaram a integridade física e
psicológica da vítima, restringiram sua liberdade ou perturbavam sua
privacidade, mediante uso abusivo de função e do sistema de câmeras do prédio,
além de dificultar serviços essenciais e aplicar multas administrativas sem
base legal como forma de retaliação.
A denúncia, conforme relatado pelo MP-GO, descreve que as
hostilidades e retaliações teriam começado em novembro de 2024 e se
estenderam até outubro de 2025, em meio a desavenças relacionadas à
administração e exploração de imóveis de temporada no mesmo condomínio, quando
relações comerciais conflituosas se intensificaram.
Mesmo com múltiplas ações judiciais em curso, 12 no total,
incluindo processos civis e a denúncia penal pelo Ministério Público, o
acusado Cléber Rosa de Oliveira permaneceu livre e no exercício da função de
síndico por meses seguintes, mesmo diante de pedidos de providências da
vítima e de decisões pendentes no Judiciário.
Hoje dia 28 de janeiro de 2026, a Polícia Civil do
Estado de Goiás, por meio do Grupo de Investigação de Homicídios de Caldas
Novas, prendeu o síndico Cléber Rosa de Oliveira e seu filho, Maykon Douglas
de Oliveira, sob suspeita de participação no homicídio de Daiane Alves
Souza, após o corpo da corretora ser localizado em uma área de mata na
região de Caldas Novas, mais de 40 dias após seu desaparecimento. A
prisão foi realizada em operação coordenada pelas autoridades policiais.
O crime de perseguição, quando reiterado, institucionalizado
e tolerado, deixa de ser um desvio individual e passa a ser um sinal de
falência do controle social e jurídico. A vítima judicializa, acumula
processos, alerta autoridades, e o agressor permanece solto, investido no
cargo, operando normalmente. A mensagem transmitida é simples e perversa,
pode continuar, nada acontecerá.
É aqui que a banalização da vida se revela. A tragédia não
choca mais. Ela entra na rotina. Assim como ainda não digerimos a morte do cão
Orelha, também não assimilamos a sucessão de escândalos, a advocacia
administrativa exercida no coração do poder, as omissões institucionais sabidas
e toleradas, a CPI que nasce velha, o rombo bilionário tratado como nota de
rodapé. Tudo vira ruído. Tudo passa.
No caso concreto, há indícios consistentes de coautoria e
participação. Ninguém mantém um sistema de vigilância abusivo, aplica sanções
ilegais, corta energia, ignora decisões judiciais e permanece no comando sem
rede de proteção. Administradoras que se omitem, órgãos que tardam, decisões
que não vêm, todos contribuem, por ação ou por silêncio.
O síndico não é dono do prédio. Nunca foi. O cargo é
funcional, temporário e limitado pela lei. Quando a Justiça demora, relativiza
ou normaliza o abuso, ela produz mais do que injustiça, ela produz risco. A
escalada era visível. O desfecho era anunciável. O Estado foi avisado.
Colocar luz sobre essa barbárie não é retórica, é dever.
Enquanto o Brasil tratar a violência reiterada como detalhe administrativo, a
perseguição como desavença e o abuso de poder como excesso tolerável, novas
tragédias virão. Não por azar. Por omissão.
No contexto sociopolítico mais amplo, tais episódios não são
isolados, mas se somam a uma pauta de casos em que a rotina da violência e da
inação institucional produz um ambiente permissivo à escalada do abuso de poder
e à banalização da vida humana.
[1]
Temístocles Telmo: Doutor e Mestre em Ciências Policiais de Segurança e Ordem
Pública. Pós-Graduado lato senso em Direito Penal. Coronel veterano da Polícia
Militar do Estado de São Paulo. Com 38 anos de experiência de atuação na
Segurança Pública. Professor de Direito Criminal na PUC-Assunção. Advogado e
membro da Comissão de Segurança Pública da 100ª Subseção do Ipiranga da OAB São
Paulo. Em 2023, coordenou os Conselhos Comunitários de Segurança da Secretaria
de Segurança Pública do Estado de São Paulo e foi Secretário de Segurança de
Santo André (2024-2025). É autor, coautor e organizador de 16 livros, com
destaque para Vizinhança Solidária. Além de escritor e articulista, também se
dedica à poesia.

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