Brasil real e Brasil fantasia,
supersalários, populismo e a normalização do abandono do essencial
Temístocles
Telmo[1]
O contexto dos fatos
Enquanto parte expressiva da sociedade se ocupa em buscar o
político dourado, aquele que grita mais alto no embate entre esquerda, direita
e centro, o Brasil real segue sendo administrado longe dos holofotes.
As manchetes recentes expõem, de um lado, o Congresso
Nacional aprovando reajustes e gratificações de até 100% para servidores da
Câmara e do Senado, e de outro, o governo ampliando políticas
assistenciais em ano eleitoral, como o vale gás, apresentado como resposta
social imediata a uma população cada vez mais dependente do Estado. No meio
desse cenário, indicadores otimistas de empregabilidade são difundidos por
parte da imprensa financiada por verbas oficiais, criando uma sensação
artificial de progresso que não se sustenta quando confrontada com a realidade
estrutural do país.
Supersalários e prioridades
invertidas
A aprovação, em votação simbólica, de reajustes salariais e
gratificações para servidores do Legislativo revela uma opção política clara.
Reestruturação de carreiras, aumentos lineares entre 8% e 9,25%, criação de
gratificações que podem alcançar 100% do vencimento básico e mecanismos que
permitem ultrapassar, na prática, o teto constitucional, demonstram um
movimento de autofortalecimento corporativo no interior do próprio Estado [1].
Trata-se de uma decisão tomada sem debate público relevante, sem transparência
individual de votos e sem qualquer conexão com a realidade fiscal vivida pela
maioria da população brasileira.
Do ponto de vista institucional, o problema não é apenas o
aumento em si, mas a mensagem transmitida. Em um país onde nada de estrutural e
verdadeiramente relevante avança no Parlamento, reformas profundas são adiadas,
projetos essenciais dormem nas gavetas e o tempo político é consumido por
disputas retóricas estéreis, o que se vota com celeridade são benefícios para
si e para seus quadros internos.
Populismo, assistencialismo e
cabresto eleitoral
Em paralelo, o Executivo aprofunda políticas de
transferência direta de renda e benefícios pontuais, como o vale gás,
apresentados como soluções sociais, mas que na prática funcionam como
instrumentos clássicos de populismo eleitoral. Em ano de eleição, ampliar o
assistencialismo é uma estratégia conhecida, mantém a dependência, fortalece o
curral eleitoral e substitui políticas estruturantes por alívios momentâneos.
Estima se que cerca de 94 milhões de brasileiros dependam
de algum tipo de transferência de renda para suprir necessidades básicas, o
que corresponde a aproximadamente 44% da população [2]. Esse dado, por si só,
desmonta a narrativa de autonomia econômica e prosperidade difundida em
discursos oficiais. Sem esses programas, a pobreza e a extrema pobreza
atingiriam patamares ainda mais elevados, o que demonstra que não há
transformação estrutural, apenas mitigação temporária da miséria.
A farsa dos números e a
militância dos dados
Parte da imprensa, sustentada direta ou indiretamente por
recursos públicos, apresenta indicadores de empregabilidade como prova de
sucesso econômico. Contudo, uma análise técnica revela que muitos desses
empregos são precários, de baixa renda e incapazes de garantir autonomia
financeira. A militância dos números transforma estatísticas em propaganda, e
essa narrativa é aceita até mesmo por quem detém algum nível de conhecimento,
seja por conveniência, alinhamento ideológico ou simples conformismo intelectual.
Reduções pontuais nos índices de pobreza, amplamente
divulgadas, dependem fortemente da manutenção de programas assistenciais [3].
Isso significa que o Estado não está promovendo emancipação econômica, mas sim
administrando a dependência, o que interessa politicamente, especialmente em
ciclos eleitorais.
O Brasil sem o mínimo essencial
Talvez o dado mais cruel, e menos explorado nas narrativas
oficiais, seja o abandono do básico. Mais da metade da população brasileira
ainda não tem acesso pleno ao mínimo indispensável para uma vida digna. Milhões
de brasileiros vivem sem saneamento básico adequado, sem acesso regular a água
tratada e esgotamento sanitário [4]. Trata-se de um problema histórico,
estrutural, conhecido e ignorado.
Enquanto isso, discute-se aumento de gratificações, licenças
indenizadas e penduricalhos institucionais. A distância entre o Brasil
institucional e o Brasil real se torna abissal. O Estado que falha em
entregar o essencial é o mesmo que não hesita em ampliar seus próprios
privilégios.
Conclusão
O retrato que se impõe é claro e desconfortável. Enquanto o
povo se prepara para o carnaval, onde simbolicamente se fantasia de palhaço,
o governo segue ampliando gastos irresponsáveis e o Congresso cuida de si
mesmo. O debate público é distraído por polarizações vazias, enquanto
decisões concretas, silenciosas e profundamente lesivas ao interesse coletivo
são tomadas.
O Brasil não está afundado por falta de recursos, mas por
escolhas. Escolhas políticas que priorizam privilégios, normalizam o
assistencialismo como instrumento eleitoral e abandonam investimentos
estruturais básicos.
Dizer isso não é retórica, é constatação técnica. O país não
precisa de mais fantasia, precisa de seriedade, responsabilidade e compromisso
real com o mínimo que ainda falta a milhões de brasileiros.
Referências
[1] Gazeta do Povo, Congresso aprova
reajuste e gratificação de até 100% para servidores da Câmara e do Senado.
[2] Rio Times, Brazil welfare state
at its limits, 94 million rely on cash transfers.
[3] Agência de Notícias IBGE,
redução da pobreza e dependência de programas sociais.
[4] Revista Galileu, percentual de
moradias no Brasil com privação de saneamento básico.
[1]
Temístocles Telmo: Doutor e Mestre em Ciências Policiais de Segurança e Ordem
Pública. Pós-Graduado lato senso em Direito Penal. Coronel veterano da Polícia
Militar do Estado de São Paulo. Com 38 anos de experiência de atuação na
Segurança Pública. Professor de Direito Criminal na PUC-Assunção. Advogado e
membro da Comissão de Segurança Pública da 100ª Subseção do Ipiranga da OAB São
Paulo. Em 2023, coordenou os Conselhos Comunitários de Segurança da Secretaria
de Segurança Pública do Estado de São Paulo e foi Secretário de Segurança de
Santo André (2024-2025). É autor, coautor e organizador de 16 livros, com
destaque para Vizinhança Solidária. Além de escritor e articulista, também se
dedica à poesia. Nosso blogue: https://professortemistoclestelmo.blogspot.com/




