Com dificuldade confesso que escrevo. Mas não se pode silenciar. Não se pode aceitar que seja mais uma das inúmeras tragédias que aparecem todos os dias em nosso Brasil.
Mas escrevo procurando não mencionar nomes, imagens. Isso seria promover a barbarie.
O caso que choca o Brasil da corrupção, o Brasil da punição seletiva, o Brasil do Garantismo ao criminoso, o Brasil dos inúmeros casos de feminicídios.
É o caso que envolve o secretário municipal de uma prefeitura em Goiás, que em sua residência, atirou contra os dois filhos, de 12 e 8 anos, na madrugada desta quinta-feira, 12, e tirou a própria vida na sequência, deixando uma carta atribuída a ele, em que menciona um suposto motivo de traição conjugal.
A criança mais nova morreu no local, a outra foi socorrida em estado grave, ainda luta pela vida. As autoridades policiais da região registraram a ocorrência e investigam formalmente os fatos, inclusive a autenticidade da carta deixada pelo autor, sem até o momento indícios de participação de outras pessoas.
(Atualização dos fatos. O segundo filho, que havia sido internado em estado gravíssimo após os disparos, não resistiu e morreu ontem, consolidando o desfecho mais trágico possível do caso.)
O que se tem aqui é uma tragédia absoluta, sem romantização, sem desculpas sociológicas de ocasião e sem fuga da responsabilidade moral.
Do ponto de vista jurídico penal, a leitura é objetiva. Em tese, trata-se de dois homicídios consumados, seguidos de suicídio do autor. Não havendo indícios de participação de terceiros, o que até o momento não se verifica, inclusive pela existência de carta atribuída ao próprio autor, o caso se encerra no plano penal com um dado frio e incontornável, morto não responde por crime. O Estado registra, investiga, esclarece, e arquiva. Ponto final jurídico.
Mas o Direito não vive apenas de tipificação.
A motivação ventilada, suposta traição conjugal, não se sustenta sob qualquer ótica racional, ética ou jurídica. Traição é conflito de adultos. É ruptura de vínculo, é dor emocional, é matéria de foro íntimo, de adultos, e, quando muito, de direito de família.
Jamais é causa legitimadora de violência contra crianças. Não há atenuante moral, não há explicação aceitável, não há relativização possível.
A carta, se confirmada como autêntica, não explica, apenas revela. Revela frieza, narcisismo e a completa instrumentalização dos filhos como objetos de vingança simbólica. Isso não é descontrole momentâneo. Isso é decisão. E decisão consciente.
No plano humano, o que resta é o irrecuperável. Duas crianças tiveram o direito de crescer brutalmente interrompido. O impacto não termina no ato, ele se projeta por décadas. E tem ainda a mãe. Que na ideia do autor, será penalizada por seu ato para sempre.
A sociedade precisa parar de buscar explicações confortáveis para atos monstruosos. Nem toda tragédia é fruto de doença, nem todo algoz é vítima das circunstâncias. Há atos que são expressão pura de escolha moral pervertida.
Este caso, não é apenas mais um registro policial. É um lembrete duro de que a barbárie também se manifesta dentro de lares, com aparência de normalidade, cargo público e discurso racional.
O Direito cumpre seu papel técnico. A dor cumpre o dela. E a consciência coletiva deveria cumprrir o seu, chamando as coisas pelo nome, isso não foi um surto, foi um crime hediondo contra inocentes, ainda que juridicamente sem réu a ser julgado.










