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Faça o que eu mando, não faça o que eu faço. O sigilo como regra no discurso que prometia transparência

Faça o que eu mando, não faça o que eu faço. O sigilo como regra no discurso que prometia transparência


Vamos aos fatos, sem retórica militante, sem adjetivações vazias e com base normativa.

Durante o período eleitoral, o discurso era claro, transparência, publicidade dos atos estatais e crítica severa ao uso indiscriminado do chamado sigilo de cem anos. O discurso era de ruptura com práticas anteriores. A prática administrativa, no entanto, revela continuidade, e em alguns pontos, ampliação do mesmo expediente criticado.

O atual governo tem mantido sob sigilo informações classificadas como pessoais, inclusive relacionadas ao uso de recursos públicos, escudando-se em interpretações extensivas da legislação. O problema não é a existência do sigilo em si, que é previsto em lei, mas a sua banalização e uso seletivo, em frontal dissonância com a narrativa eleitoral.


DESTAQUE FÁTICO, PARA QUE NÃO SE DIGA QUE É OPINIÃO

Duas manchetes, dois veículos distintos, o mesmo fato jurídico e político. A manutenção do sigilo sobre informações classificadas como pessoais, ainda que envolvam dinheiro público.


“Governo Lula mantém sigilo sobre informações consideradas pessoais, apesar de ter criticado Bolsonaro”

G1, 4 de janeiro de 2025.


“Mudanças no sigilo de 100 anos manterão dados de Janja em segredo”

Poder360, janeiro de 2025.


Os títulos falam por si. Não é narrativa, é registro jornalístico. Não é perseguição, é coerência que se cobra. Quando o discurso eleitoral promete transparência e a prática administrativa consolida o sigilo, o problema não é jurídico, é político e institucional.

Aqui entra a Lei de Acesso à Informação, Lei nº 12.527, de 2011, que não deixa margem para confusão quando se lê o texto, e não o discurso político. Lei aprovada no Governo Dilma e que foi considerada à época a “bala de prata” da probidade do PT. Mas não foi é claro!

Art. 3º da Lei nº 12.527, de 2011

“Acesso à informação pública é assegurado mediante procedimentos objetivos e ágeis, de forma transparente, clara e em linguagem de fácil compreensão.”


Mais direto ainda é o dispositivo que trata da publicidade como regra.


Art. 3º, inciso I

“Observância da publicidade como preceito geral e do sigilo como exceção.”


E o ponto que vem sendo convenientemente distorcido.


Art. 31, caput

“O tratamento das informações pessoais deve ser feito de forma transparente e com respeito à intimidade, vida privada, honra e imagem das pessoas, bem como às liberdades e garantias individuais.”


Agora, o trecho que encerra qualquer debate honesto.


Art. 31, § 3º, inciso V

“Não poderá ser invocada a proteção à informação pessoal para prejudicar processos de apuração de irregularidades em que o titular das informações estiver envolvido, bem como para ocultar informações relativas à utilização de recursos públicos.”


Aqui está o ponto. Claro, objetivo e escrito em lei. Informação que envolve gasto público não é propriedade privada do governante de turno, nem de seus familiares, assessores ou entorno político. O dinheiro é público, logo, a informação também é. É a materialização do Princípio da Moralidade Pública. Art. 37 da CF/88.


O que se observa hoje é a inversão da lógica legal. O sigilo deixou de ser exceção e passou a ser método. A transparência virou slogan de campanha, não prática administrativa.


Quando era contra adversários, era autoritarismo. Quando é a favor dos próprios interesses, virou zelo pela intimidade. Isso não é interpretação jurídica, é conveniência política.


O Estado não é trincheira ideológica. A Lei não é panfleto. E a transparência não pode ser seletiva, sob pena de se transformar em farsa institucionalizada.


A Lei de Acesso à Informação continua a mesma. O que mudou foi o intérprete, conforme o interesse do momento. Transparência não pode ser cláusula condicional. Ou é princípio republicano permanente, ou nunca passou de slogan de campanha.

Simples assim!


Turilândia, município do estado do Maranhão dos respiradores, a política local como temporada infinita de escândalos

Por Professor Telmo @temistocles_telmo

Prefeito, vice e todos os vereadores de Turilândia, no Maranhão, são presos após operação que investiga desvio de R$ 56 milhões.

Que o Brasil virou um enredo repetido de escândalos não surpreende mais ninguém. O espanto já não mora no fato, mora no detalhe. Cada capítulo vem com requintes que fariam roteirista de série pedir aumento. Sempre tem temporada nova, sempre tem plot twist.

Veiculou em meio ao Natal. Tempo de mesa farta, promessas de paz e discursos de esperança. Ainda assim, a realidade não deu trégua. Nem nos festejos, nem no calendário, nem na velha rotina brasileira de confundir o excepcional com o normal

O Maranhão entra outra vez em cena. Estado sofrido, castigado pela pobreza e pela falta histórica de oportunidades, mas pródigo em casos que envergonham a federação. Já vimos desvio de respiradores em plena pandemia, já vimos autoridade flagrada com carro oficial na praia e ainda promovido depois. Mas isso fica para outro rolo de filme.

O fato agora é Turilândia. A Justiça opta por substituir prisões por domiciliar e tornozeleira para não interromper o funcionamento do município. O argumento institucional é claro, garantir a continuidade administrativa. O promotor do GAECO explica, o raciocínio está posto, a cidade não pode parar.

Na teoria, soa razoável. Na prática, causa estranhamento. Porque a mesma lógica que busca proteger o interesse público acaba entregando a chave da prefeitura a quem está sob investigação criminal, com tornozeleira no pé e suspeitas nas costas. A imagem é forte demais para passar batida. Parece meme, parece charge, parece sátira, mas é vida real.

Não se trata de atacar pessoas. Não é julgamento moral antecipado. Investigação não é condenação, isso é básico do Estado de Direito e ninguém sério discute. O que se discute é a simbologia institucional. A mensagem que chega ao cidadão comum é torta. Dá a sensação de que o sistema anda em círculos, prende com uma mão e governa com a outra.

Aqui é preciso reconhecer o trabalho pesado e silencioso da polícia, do Ministério Público e do Judiciário. Gente que investiga, que enfrenta estruturas locais, que compra briga grande em cidade pequena. Isso tem custo pessoal, profissional e político. Esse esforço não pode ser diminuído.

Mas também não dá para fingir que tudo é normal. Quando o investigado assume o comando, mesmo que temporário, mesmo que por força da lei, a cena lembra a velha metáfora da raposa cuidando do galinheiro. Não porque já se saiba o desfecho, mas porque a confiança pública, essa sim, já saiu ferida. Então era melhor ter entregue a chave da prefeitura para o porteiro. 

No fim, o que fica é a sensação incômoda de um país que tenta fazer o certo, mas tropeça na própria engrenagem. 

A legalidade caminha, a moralidade manca e o cidadão assiste de longe, cansado, achando que tudo isso já viu antes. E viu mesmo.

Referência: 

https://g1.globo.com/ma/maranhao/noticia/2025/12/25/veja-como-prefeito-vice-vereadores-e-empresarios-atuavam-para-desviar-r-56-milhoes-em-turilandia-no-maranhao.ghtml





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