
Enquanto Banco Master e Will Bank caminhavam de forma previsível para a liquidação, fato conhecido nos bastidores regulatórios e já monitorado pelo Banco Central, Daniel Vorcaro e empresas a ele ligadas seguiram adquirindo patrimônio de altíssimo valor, inclusive imóveis nos Estados Unidos, em uma das operações imobiliárias mais caras já registradas envolvendo brasileiros no exterior.
As aquisições ocorreram no mesmo período em que a crise do conglomerado se aprofundava, com liquidações em série e risco sistêmico já consumado .
Isso muda o grau de gravidade do cenário.
Não se trata mais apenas de má gestão ou erro empresarial. Trata-se de dissociação consciente entre risco público e benefício privado. Enquanto o sistema financeiro ruía e o Fundo Garantidor de Créditos se preparava para desembolsar dezenas de bilhões de reais, o controlador expandia seu patrimônio pessoal, inclusive fora do país, blindando ativos e afastando recursos do alcance natural da jurisdição brasileira.
Quem paga a conta, agora de forma escancarada?
O custo está estimado em mais de R$ 47 bilhões, somando Banco Master e Will Bank. O FGC paga, o sistema bancário absorve, o crédito encarece, e o cidadão comum sustenta o colapso. Do outro lado, patrimônio protegido, dolarizado e fora do alcance imediato das autoridades nacionais
Isso é juridicamente irrelevante? Não.
A aquisição de bens de alto valor no curso de uma crise sabidamente irreversível, especialmente com recursos oriundos de instituições em colapso, é indício clássico para apuração de lavagem de capitais, fraude contra o sistema financeiro, desvio patrimonial e dilapidação de ativos. Em qualquer manual sério de direito penal econômico, isso acende o alerta máximo.
E a prisão preventiva, continua cabível?
Mais do que antes. O risco de evasão patrimonial, a internacionalização de ativos e a consolidação de blindagem econômica são fundamentos concretos, objetivos e tradicionais para a prisão cautelar. Não se exige criatividade jurídica, exige apenas aplicação da lei como sempre foi feita, ao menos para os que não usam paletó caro.
Então por que nada acontece?
Porque a engrenagem institucional trava quando o investigado pertence à elite financeira. A Procuradoria Geral da República, percebida como funcionalmente alinhada ao Supremo Tribunal Federal, opta pela inércia. A Corte centraliza, impõe sigilo e esvazia a resposta penal. O resultado é simples, previsível e conhecido.
O banco quebra. A fintech cai. O rombo explode. O dinheiro público é mobilizado. E o controlador compra imóvel de luxo nos Estados Unidos. Isso não é coincidência, é sintoma. No Brasil, o colapso financeiro de cima nunca termina em cela, termina em escritura registrada no exterior.
[1] Temístocles Telmo: Doutor e Mestre em Ciências Policiais de Segurança e Ordem Pública. Pós-Graduado lato senso em Direito Penal. Coronel veterano da Polícia Militar do Estado de São Paulo. Com 38 anos de experiência de atuação na Segurança Pública. Professor de Direito Criminal na PUC-Assunção. Advogado e membro da Comissão de Segurança Pública da 100ª Subseção do Ipiranga da OAB São Paulo. Em 2023, coordenou os Conselhos Comunitários de Segurança da Secretaria de Segurança Pública do Estado de São Paulo e foi Secretário de Segurança de Santo André (2024-2025). É autor, coautor e organizador de 16 livros, com destaque para Vizinhança Solidária. Além de escritor e articulista, também se dedica à poesia.
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