Discurso de Esquerda, Endereço em Dólar

Wagner Moura é um personagem curioso do nosso tempo. Voz grave, talento reconhecido, discurso afiado. No palco e na tela, coragem. Fora deles, conforto. A recente reportagem mostrou o ator no centro do palco internacional, premiado no Globo de Ouro por O Agente Secreto, celebrado em Los Angeles como melhor ator e parte de um filme brasileiro aclamado mundo afora. Aplausos de pé, flashes, discurso emocionado. Mérito artístico incontestável.


Mas a crônica começa depois do aplauso. Moura segue sendo o mesmo crítico ferrenho do capitalismo, da direita, do modelo liberal que ele aponta como vilão histórico. Tudo dito com convicção, verbo firme, pose de resistência. O detalhe é conhecido, mas sempre incômodo, ele mora nos Estados Unidos, trabalha no coração da indústria cultural mais capitalista do planeta, recebe em dólar, vive com segurança, ordem e oportunidades que o sistema que ele condena oferece com eficiência.


Nada contra mudar de país, isso é escolha pessoal. O desconforto está na incoerência dita em voz alta. A revolução nunca atravessa a fronteira junto. O discurso fica no Brasil, a vida prática se estabelece onde o Estado não sufoca e o mérito ainda conta. Fala de povo, mas vive longe dele. Fala de opressão, mas escolheu o lugar onde o aperto é menor e o conforto é maior.


É o retrato clássico da esquerda de salão, sofisticada, bem falada, premiada. Combate o sistema enquanto usufrui dele com gosto. Critica o império brindando dentro do palácio. Diz que o passado errou, mas repete um hábito antigo, criticar de longe, aproveitar de perto. No fim, o talento permanece, o prêmio reluz, mas a contradição também. E o público, cada vez menos ingênuo, percebe.


2 comentários:

  1. Parabéns pela análise e diagnóstico da epidemia do "socialismo fica bem para os outros, para mim, não serve..."

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  2. Obrigado nobre amigo pela análise e comentários.

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Muito obrigado por seu interesse e participação