Em política, coincidência raramente anda sozinha. Timing é método. E governos, de qualquer espectro ideológico, costumam recalibrar discursos e medidas quando percebem desgaste popular, especialmente em ano eleitoral.
A chamada “taxa das blusinhas” nasceu justamente dentro do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, sob condução da equipe econômica de Fernando Haddad. A cobrança de 20% sobre compras internacionais de até US$ 50 virou símbolo de desgaste político desde 2023, após forte reação popular nas redes sociais e entre consumidores de baixa renda.
Agora, às vésperas da eleição, o mesmo governo extingue a cobrança por medida provisória. E não apenas isso. O movimento vem acompanhado de um pacote com forte apelo popular, incluindo endurecimento no discurso contra o crime organizado, tema historicamente sensível para a percepção de segurança da população.
Politicamente, o raciocínio é claro.
Primeiro cria-se uma medida técnica, arrecadatória ou regulatória. Depois, diante do desgaste, apresenta-se o recuo como gesto de sensibilidade popular. O problema é que o eleitor lembra quem criou o custo antes de aplaudir quem retirou a cobrança.
A narrativa oficial sustenta que o sistema de fiscalização já estaria organizado, o contrabando reduzido e o comércio eletrônico regularizado, permitindo a retirada da taxa.
Mas os próprios bastidores apontados pela imprensa revelam outro componente, desgaste eleitoral e queda de popularidade.
No fundo, o episódio mostra uma velha máxima da política brasileira.
Quando a popularidade cai, medidas impopulares deixam de ser “necessárias” e passam a ser “equívocos corrigíveis”.
E o combate ao crime organizado entrando no mesmo pacote não é casualidade comunicacional. Segurança pública continua sendo um dos temas de maior impacto emocional e eleitoral no país. Associar alívio econômico ao discurso de firmeza contra o crime produz um efeito político amplo, consumo, sensação de proteção e tentativa de retomada de confiança.
A questão central não é se isso é permitido. É.
A política trabalha exatamente com percepção, oportunidade e sobrevivência institucional.
A pergunta real é outra.
O eleitor enxergará coerência de governo ou apenas gestão de desgaste?
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