
Temístocles Telmo
Este artigo é escrito neste dia de Natal. Não por saudosismo, não por nostalgia, mas por urgência. Escreve-se agora para não perder o momento crítico, aquele em que a realidade se impõe com força e não permite silêncio.
O artigo Trânsito, morte e ativismo garantista, publicado anteriormente, é a base conceitual desta reflexão.
Ele não relata esta ocorrência específica, mas ajuda a compreendê-la. O que aconteceu apenas confirma, de forma dolorosa, o que já vinha sendo alertado.
No dia de Natal, enquanto muitas famílias se preparavam para a ceia, a rotina foi rompida de maneira definitiva na SP-331, altura do km 111, no município de Reginópolis, interior paulista. Uma família inteira teve o destino interrompido. Adultos e crianças perderam a vida em uma ocorrência que reúne todos os elementos já conhecidos do nosso trânsito, imprudência grave, irresponsabilidade ao volante e, ao final, a previsível sensação de impunidade.
Os detalhes técnicos pertencem aos autos e devem ser preservados. O que não pode ser tratado como detalhe é o padrão. Indícios consistentes de condução sob influência de álcool, comportamento incompatível com a segurança viária e consequências irreversíveis. Ainda assim, o enquadramento segue o roteiro habitual, homicídio culposo na direção de veículo automotor, com o condutor respondendo em liberdade. Para uns, a ceia nunca aconteceu. Para outros, o Natal seguiu quase intacto.
É aqui que o artigo de referência se conecta diretamente aos fatos. Em Trânsito, morte e ativismo garantista, sustento que o trânsito brasileiro deixou de ser apenas um espaço de circulação e passou a ser território fértil para a banalização da morte. A vítima desaparece rapidamente do debate, enquanto o autor da conduta recebe a proteção máxima de um sistema que relativiza a gravidade do agir humano quando ele ocorre ao volante.
Esse cenário não é casual. Ele é alimentado por entendimentos judiciais que enfraquecem a resposta penal no trânsito. Decisões recentes, especialmente aquelas firmadas a partir da orientação do ministro André Mendonça, ao restringirem prisões e medidas cautelares mesmo diante de condutas gravíssimas, acabam por reforçar a ideia de que matar no trânsito é um evento tolerável do ponto de vista jurídico. O efeito prático é devastador, morre-se muito e pune-se pouco.
https://professortemistoclestelmo.blogspot.com/2025/12/transito-morte-e-ativismo-garantista.html
Enquanto a jurisprudência debate conceitos, a vida real cobra seu preço. No dia de Natal, homens do Policiamento Rodoviário Paulista estavam na pista. O Tenente PM Harberkon e o Subtenente PM Briscool deixaram o conforto e a segurança de suas famílias para coordenar o atendimento de uma ocorrência marcada pela perda total dos 5 (cinco) integrantes de uma família. Enfrentaram o cenário mais duro da profissão, o silêncio definitivo onde deveria haver celebração, a ausência onde deveria haver presença.
Faço aqui um registro que não é apenas pessoal, é profissional e institucional. Dediquei mais de 15 anos da minha carreira ao Policiamento Rodoviário Paulista, dentro de um total de 38 anos de serviço ativo na PMESP. Foram incontáveis dias de Natal e viradas de ano passados na pista, em acidentes, atendimentos e despedidas. Por isso este texto não nasce da teoria, nasce da vivência. Ele vem do asfalto, não do gabinete.
Não por acaso, esse debate já ultrapassou o papel. O Comandante do Policiamento Rodoviário Paulista, Coronel PM Hugo Santos, mencionou o nosso artigo Trânsito, morte e ativismo garantista em importante reunião da Associação Brasileira de Concessionárias de Rodovias.
Quando quem comanda a linha de frente reconhece publicamente o problema, é porque a distância entre o discurso jurídico e a realidade das rodovias se tornou insustentável.
Este artigo não é contra garantias individuais. É contra a banalização da morte. Não é clamor punitivista, é defesa da vida. É escrito neste dia 25/12/25, Dia de Natal, porque a tragédia não respeita calendário, e a justiça, se quiser ser justa, também não deveria respeitar a conveniência.
Enquanto houver ceias que não aconteceram e culpados que seguem em liberdade, o trânsito continuará sendo um dos retratos mais cruéis da nossa falência moral, jurídica e institucional.
O artigo de referência pode ser lido em:
https://professortemistoclestelmo.blogspot.com/2025/12/transito-morte-e-ativismo-garantista.html
Nenhum comentário:
Postar um comentário
Muito obrigado por seu interesse e participação