Tribunal de exceção em silêncio: por que o caso Banco Master desafia o “código de conduta” de Fachin?
Temístocles
Telmo[1]
O silêncio do presidente do STF diante das denúncias
envolvendo Alexandre de Moraes e Dias Toffoli no caso Banco Master transforma o
prometido “código de conduta” em gesto mais retórico do que
institucional. Esse descompasso entre discurso e prática reforça a percepção de
que a pauta ética está servindo como cortina de fumaça em um momento de forte
desgaste da Corte.⁽¹⁾⁽²⁾
Código de
conduta como narrativa
A proposta de Edson Fachin para um código de conduta para
ministros dos tribunais superiores é apresentada como mecanismo de
transparência, inspirado em modelos estrangeiros e anunciada como compromisso
com “práticas institucionais impessoais”.⁽³⁾⁽⁴⁾
Em tese, um instrumento assim deveria servir para enfrentar
imediatamente dilemas éticos
concretos, como suspeitas de conflito de interesses, viagens com partes
interessadas e contratos milionários
de familiares com investigados.⁽²⁾⁽⁵⁾
O silêncio
diante do Banco Master
Enquanto se fala em regras éticas,
seguem sem resposta pública firme as suspeitas de que a esposa de um ministro
teria contrato de alto valor com o Banco Master e de que outro ministro viajou
em jatinho com advogado ligado à instituição em meio à investigação que ele
próprio relata.⁽²⁾⁽⁵⁾⁽⁶⁾
A centralização
do caso Master no STF, com decisões
sob sigilo e forte questionamento de senadores e juristas, intensifica a sensação de tribunal de exceção, impermeável ao escrutínio constitucional que ele mesmo
deveria encarnar.⁽¹⁾⁽²⁾⁽⁷⁾
Confiança em
queda e ceticismo
Pesquisas recentes evidenciam um quadro de confiança frágil
no STF: levantamentos de opinião mostram índices relevantes de avaliação
negativa e alta descrença, ainda que com variação conforme o grupo político-partidário.
⁽⁸⁾⁽⁹⁾
Em ambiente assim, falar em “diretrizes
éticas” sem enfrentar casos concretos
soa como gesto performático:
algo “para inglês ver”, incapaz de recompor a legitimidade de uma corte
que já vem sendo percebida,
por parcelas expressivas da sociedade, como ator político e não
como guardiã neutra da Constituição.⁽³⁾⁽⁸⁾
Histórico que
alimenta a desconfiança
O próprio percurso de Fachin, de militância
político-partidária anterior à nomeação, à atuação decisiva em julgamentos com
forte impacto no cenário eleitoral, como a anulação de condenações que
permitiram o retorno do atual presidente à disputa, alimenta leituras de
alinhamento e instrumentalização da jurisdição constitucional.⁽¹⁰⁾
As decisões em ações
de controle concentrado e casos sensíveis
na área penal e de segurança pública, a exemplo de julgados que redesenharam a
atuação estatal em favelas
e periferias, também contribuíram para associar a Corte a um protagonismo
contramajoritário muitas vezes distante da percepção de segurança e
estabilidade jurídica do cidadão comum.⁽¹²⁾
Moralidade
constitucional além de códigos
Do ponto de vista técnico, o princípio da moralidade
administrativa já fornece parâmetros normativos para coibir condutas
incompatíveis com a imparcialidade, sem necessidade de um novo enunciado
“salvador”.⁽¹¹⁾
A ausência
de pronunciamento claro do presidente do STF sobre fatos que podem configurar
conflito de interesses entre ministros e partes investigadas demonstra que o
problema não é falta de texto, mas de vontade
institucional de se submeter ao mesmo crivo de responsabilidade que o Tribunal
exige de todos os demais poderes.⁽¹⁾⁽²⁾
Referências
- Gazeta do Povo – editorial sobre relações do Banco Master com ministros do STF.gazetadopovo
- Gazeta do Povo – reação de Congresso e juristas à decisão de Toffoli no caso Banco Master.gazetadopovo
- G1 – Fachin quer implementar código de conduta para tribunais superiores.globo
- CNN Brasil – Fachin defende diálogo para criar código de conduta para ministros do STF.youtube
- G1 – reportagem sobre pressão de Moraes em favor do Banco Master e contrato com escritório de sua esposa.globo
- Senado Federal – pronunciamento sobre possível conflito de interesses de Toffoli e Moraes no caso Master.senado
- Jovem Pan News – decisão de Toffoli de puxar processo do Banco Master para o STF.youtube
- PoderData – avaliação negativa do trabalho do STF.cnnbrasil
- Quaest – pesquisa sobre confiança no STF em 2025.brasildefato
- G1 – decisões de Fachin em processos criminais envolvendo o atual presidente da República e repercussões políticas (compilados em dossiê sobre Lava Jato e anulações).scielo
- Doutrina e jurisprudência sobre o princípio da moralidade administrativa no controle de condutas de agentes públicos.scielo
- Estudo acadêmico sobre confiança pública no STF e percepção de politização da Corte.scielo
[1]
Temístocles Telmo: Doutor e Mestre em Ciências Policiais de Segurança e Ordem
Pública. Pós-Graduado lato senso em Direito Penal. Coronel veterano da Polícia
Militar do Estado de São Paulo. Com 38 anos de experiência de atuação na
Segurança Pública. Professor de Direito Criminal na PUC-Assunção. Advogado e
membro da Comissão de Segurança Pública da 100ª Subseção do Ipiranga da OAB São
Paulo. Em 2023, coordenou os Conselhos Comunitários de Segurança da Secretaria
de Segurança Pública do Estado de São Paulo e foi Secretário de Segurança de
Santo André (2024-2025). É autor, coautor e organizador de 16 livros, com
destaque para Vizinhança Solidária. Além de escritor e articulista, também se
dedica à poesia.

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