Por Professor Telmo @temistocles_telmo
Prefeito, vice e todos os vereadores de Turilândia, no Maranhão, são presos após operação que investiga desvio de R$ 56 milhões.
Que o Brasil virou um enredo repetido de escândalos não surpreende mais ninguém. O espanto já não mora no fato, mora no detalhe. Cada capítulo vem com requintes que fariam roteirista de série pedir aumento. Sempre tem temporada nova, sempre tem plot twist.
Veiculou em meio ao Natal. Tempo de mesa farta, promessas de paz e discursos de esperança. Ainda assim, a realidade não deu trégua. Nem nos festejos, nem no calendário, nem na velha rotina brasileira de confundir o excepcional com o normal
O Maranhão entra outra vez em cena. Estado sofrido, castigado pela pobreza e pela falta histórica de oportunidades, mas pródigo em casos que envergonham a federação. Já vimos desvio de respiradores em plena pandemia, já vimos autoridade flagrada com carro oficial na praia e ainda promovido depois. Mas isso fica para outro rolo de filme.
O fato agora é Turilândia. A Justiça opta por substituir prisões por domiciliar e tornozeleira para não interromper o funcionamento do município. O argumento institucional é claro, garantir a continuidade administrativa. O promotor do GAECO explica, o raciocínio está posto, a cidade não pode parar.
Na teoria, soa razoável. Na prática, causa estranhamento. Porque a mesma lógica que busca proteger o interesse público acaba entregando a chave da prefeitura a quem está sob investigação criminal, com tornozeleira no pé e suspeitas nas costas. A imagem é forte demais para passar batida. Parece meme, parece charge, parece sátira, mas é vida real.
Não se trata de atacar pessoas. Não é julgamento moral antecipado. Investigação não é condenação, isso é básico do Estado de Direito e ninguém sério discute. O que se discute é a simbologia institucional. A mensagem que chega ao cidadão comum é torta. Dá a sensação de que o sistema anda em círculos, prende com uma mão e governa com a outra.
Aqui é preciso reconhecer o trabalho pesado e silencioso da polícia, do Ministério Público e do Judiciário. Gente que investiga, que enfrenta estruturas locais, que compra briga grande em cidade pequena. Isso tem custo pessoal, profissional e político. Esse esforço não pode ser diminuído.
Mas também não dá para fingir que tudo é normal. Quando o investigado assume o comando, mesmo que temporário, mesmo que por força da lei, a cena lembra a velha metáfora da raposa cuidando do galinheiro. Não porque já se saiba o desfecho, mas porque a confiança pública, essa sim, já saiu ferida. Então era melhor ter entregue a chave da prefeitura para o porteiro.
No fim, o que fica é a sensação incômoda de um país que tenta fazer o certo, mas tropeça na própria engrenagem.
A legalidade caminha, a moralidade manca e o cidadão assiste de longe, cansado, achando que tudo isso já viu antes. E viu mesmo.
Referência:
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