A chamada Faixa Azul nasceu com a promessa de organizar o fluxo, reduzir conflitos e preservar vidas. A intenção é correta. A execução, contudo, revela um resultado preocupante, que não pode ser ignorado.
Pesquisa realizada por um consórcio formado pela Universidade de São Paulo, pela Universidade Federal do Ceará e pelo Instituto Cordial, em parceria com a Vital Strategies, demonstra que, após a implantação da Faixa Azul, os sinistros fatais envolvendo motociclistas em cruzamentos aumentaram, em média, entre 100% e 120%. Trata-se de um dado grave, objetivo e técnico, que exige reflexão imediata.
O mesmo estudo aponta outro fator decisivo. Houve elevação expressiva da velocidade média das motocicletas nas vias com essa sinalização. Embora o limite regulamentar seja de 50 km por hora, a média saltou de 58,3 km por hora para 72,2 km por hora após a implantação da Faixa Azul. O que deveria induzir organização acabou funcionando, na prática, como estímulo à aceleração.
Infelizmente, algo pensado para proteger passou a produzir o efeito oposto. Parte dos motociclistas passou a interpretar a Faixa Azul como uma pista preferencial, quase uma pista de corrida. Lançam-se nela com excesso de confiança, aceleram mais do que a via comporta e ampliam o risco exatamente nos pontos mais sensíveis, os cruzamentos.
Não se trata de demonizar o motociclista nem de negar a utilidade da engenharia de tráfego. Trata-se de reconhecer um fato elementar da segurança viária, sinalização não substitui comportamento responsável. Nenhuma faixa no asfalto é capaz de compensar imprudência, excesso de velocidade e falsa sensação de prioridade absoluta.
Talvez o caminho esteja menos na tinta azul e mais na educação contínua, permanente e técnica. É preciso reforçar a ideia básica, quase óbvia, mas frequentemente esquecida, a velocidade da motocicleta deve ser inferior à da via, e não superior. Motocicleta exige margem de segurança maior, não menor.
Segurança no trânsito não se constrói com soluções mágicas. Constrói-se com dados, responsabilidade e respeito às regras que sempre funcionaram.
O passado ensina, a estatística confirma, e insistir no erro, por mais bem intencionado que seja, cobra um preço alto demais.
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