Saidinha e o preço social do descaso, Parte 1
Sete anos depois da prisão, Dourado voltou às ruas. Não foi fuga cinematográfica, não foi resgate armado. Foi a porta oficial do Estado que se abriu. O caso confirma, na prática, o alerta que fizemos em 21 de dezembro de 2025, no artigo “Entre leis e algemas, quando a caneta pesa mais que a segurança”. A saída temporária, quando aplicada sem critério rigoroso, deixa de ser instrumento jurídico e passa a ser fator de risco social.
Naquele texto, apontamos que a saidinha, pensada como medida excepcional de ressocialização, transformou-se em rotina burocrática, distante da realidade das ruas. A lei concede, o controle falha, e a sociedade paga. Não há surpresa, há repetição de um modelo que insiste em ignorar seus próprios efeitos.
Quando o sistema abre a porta sem garantir a volta, ele terceiriza o risco ao cidadão comum, aquele que pega ônibus, trabalha à noite e confia que o Estado cumpra sua parte.
Em São Paulo, Que beneficiou cerca de 30 mil detentos do regime semiaberto, permitindo que saíssem a partir de 23 de dezembro de 2025 e retornassem até 5 de janeiro de 2026, para visita familiar e ressocialização. O cenário permanece em aberto. Mesmo assim, a amostra do estrago já é visível. Até o momento, 17 detentos foram presos em flagrante durante o período da saidinha, além do registro de quase mil infrações às condições impostas, como descumprimento de horários, circulação em locais proibidos e reincidência criminal.
Antes mesmo do fim do benefício, o sistema já expõe sua fragilidade.
Entre esses episódios, um caso sintetiza o alerta feito em nosso artigo de 21 de dezembro. Um detento beneficiado pela saída temporária foi preso após tentar estuprar uma idosa de 89 anos, dentro da própria residência da vítima. Aqui, a discussão deixa o campo abstrato e ganha corpo, vítima e consequência.
É exatamente o risco social que denunciamos quando afirmamos que decisões tomadas longe da rua recaem diretamente sobre quem vive nela.
No Rio de Janeiro, o cenário já está fechado e os números são definitivos. Dos 1.868 detentos beneficiados com a saidinha de Natal, 258 não retornaram no prazo legal. Entre eles, 150 pertencem ao Comando Vermelho. Ao longo de 2025, 992 presos seguem foragidos após saídas temporárias no estado. Aqui, não há expectativa, há resultado concreto.
É nesse contexto que se insere o caso de Tiago Vinicius Vieira, conhecido como Dourado, acusado de chefiar grandes assaltos e atuar no tráfico de drogas e armas, que foi beneficiado agora pela saída temporária e não retornou ao sistema prisional no Rio de Janeiro. O episódio não é isolado nem excepcional. Ele se soma a uma sequência de fatos que revelam o mesmo padrão estrutural, uma política criminal que confunde humanização com permissividade e ressocialização com ausência de controle.
No Brasil, mais de 46 mil presos receberam o benefício da saída temporária neste Natal. Percentuais frios podem até ser invocados para defesa do modelo, mas o impacto real não é matemático, é social. Cada evasão representa risco concreto. Cada infração fragiliza a credibilidade do sistema penal.
As forças de segurança atuam na recaptura, como sempre. Correm atrás do prejuízo. O erro, porém, acontece antes, no ato de soltar sem inteligência, sem fiscalização suficiente e sem avaliar o custo humano dessa decisão.
O número tende a aumentar, sobretudo em São Paulo, onde a saidinha ainda está em curso. Por isso, este texto não se encerra aqui. Ele é o primeiro capítulo. Em breve, trataremos da Parte 2 deste descaso com a sociedade, com os dados consolidados e a conta final que, invariavelmente, recai sobre o cidadão comum.
Referências
ARAÚJO, Temístocles Telmo Ferreira. Entre leis e algemas, quando a caneta pesa mais que a segurança. Blog do Professor Temístocles Telmo, 21 dez. 2025.
UOL Notícias. Saidinha em SP tem 17 presos em flagrante e quase mil infrações. 28 dez. 2025.
Metrópoles. Saidinha: detento é preso por tentar estuprar idosa de 89 anos. Dez. 2025.
O Globo. Maioria é do CV: presos não retornam após saída temporária no RJ. Dez. 2025.
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