Um ano depois, será que o judiciário brasileiro segue entre os mais injustos e desacreditados do mundo? quem garante o garantidor
Temístocles
Telmo[1]
A Justiça sempre foi concebida como a última trincheira do cidadão. Quando a política falha, quando a administração erra, quando o abuso se instala, resta o Judiciário. Essa lógica não é moderna, é clássica, nasce com o próprio Estado de Direito e se sustenta na imparcialidade, na previsibilidade e na confiança institucional.
O problema é que os dados oficiais mais recentes não
autorizam otimismo. O
Rule of Law Index 2024, elaborado pelo World Justice Project, posicionou o
Brasil na 80ª colocação entre 142 países avaliados. A pesquisa foi divulgada
internacionalmente em 2024 e amplamente repercutida no Brasil ao longo de 2025.
Em termos objetivos, o país ficou abaixo da média global e distante das
democracias consolidadas, revelando fragilidades estruturais no funcionamento
das instituições de Justiça ([Jornal USP][1]).
No recorte específico da Justiça Criminal, o quadro é ainda
mais preocupante. O Brasil figura entre os piores do mundo em imparcialidade,
superando apenas a Venezuela. Não se trata de retórica política ou de disputa
ideológica, mas de metodologia científica, baseada em indicadores comparáveis,
aplicados de forma padronizada em mais de uma centena de países. É a fotografia
institucional de um sistema que perde credibilidade externa e, de modo cada vez
mais evidente, interna.
Mais de um ano após a divulgação desses números, a pergunta
permanece direta e incômoda. Houve alguma mudança concreta. À luz do que
se vivencia diariamente, com decisões erráticas, seletividade punitiva,
ativismo judicial e insegurança jurídica permanente, não se identificam sinais
de reversão estrutural. A percepção social, ao contrário, é de aprofundamento
da desconfiança.
Essa desconfiança não surge do nada. O próprio índice aponta
fragilidade no critério ausência de corrupção, que não se limita à
prática ilícita em sentido penal, mas envolve a percepção de integridade,
independência e decoro do sistema de Justiça.
Essa percepção se deteriora quando vêm a público episódios
de magistrados viajando com advogados de réus em jatos particulares para
assistir a jogos de futebol. Quando familiares de juízes figuram como
beneficiários de contratos milionários de honorários pagos por partes com
processos em curso. Quando réus ou escritórios que os representam patrocinam
eventos institucionais de cortes judiciais, confundindo liturgia do cargo com
relações privadas de conveniência.
Soma-se a isso a deformação do papel do julgador. O juiz que
abandona a posição de árbitro imparcial e passa a atuar como investigador,
controlador da cadeia de custódia e gestor da prova rompe o núcleo essencial do
devido processo legal. Nesse ambiente, a imparcialidade deixa de ser
pressuposto e passa a ser dúvida permanente.
Historicamente, sempre se aceitou que a Justiça fala por
último. Mas isso só é legítimo quando ela fala com neutralidade e respeito às
regras do jogo. Quando o último a falar erra de forma recorrente, não há
instância superior a quem recorrer. O sistema se fecha, o controle desaparece e
o cidadão fica sem amparo.
É nesse ponto que a questão se impõe com toda a sua
gravidade. Quem garante o garantidor. Se o órgão criado para conter
excessos passa a produzi-los, o Estado de Direito não cai de uma vez, ele se
desgasta por dentro, de forma silenciosa e contínua.
Justiça não é palco ideológico, não é instrumento de poder,
não é atalho moral. Justiça é limite. Quando o limite se perde, o poder sobra.
E quando o poder sobra, a liberdade falta.
[1]:
https://jornal.usp.br/campus-ribeirao-preto/heranca-cultural-deixa-o-brasil-entre-os-piores-paises-em-ranking-global-de-estado-de-direito/?utm_source=chatgpt.com
"Brasil tem um dos piores índices de corrupção e ..."
[1]
Temístocles Telmo: Doutor e Mestre em Ciências Policiais de Segurança e Ordem
Pública. Pós-Graduado lato senso em Direito Penal. Coronel veterano da Polícia
Militar do Estado de São Paulo. Com 38 anos de experiência de atuação na
Segurança Pública. Professor de Direito Criminal na PUC-Assunção. Advogado e
membro da Comissão de Segurança Pública da 100ª Subseção do Ipiranga da OAB São
Paulo. Em 2023, coordenou os Conselhos Comunitários de Segurança da Secretaria
de Segurança Pública do Estado de São Paulo e foi Secretário de Segurança de
Santo André (2024-2025). É autor, coautor e organizador de 16 livros, com
destaque para Vizinhança Solidária. Além de escritor e articulista, também se
dedica à poesia.

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