Artigo de Opinião
Entre a ficção e a realidade, quando o crime ganha verniz de virtude
O Brasil, por sua própria complexidade histórica e social, nunca foi terreno simples. Ainda assim, alguns episódios recentes acendem um alerta que não pode ser ignorado.
Na dramaturgia, a novela Três Graças levou ao ar uma cena em que a personagem vivida por Daphne Bozaski assume o comando do tráfico de drogas em uma comunidade, justificando sua ascensão com um discurso de empoderamento feminino.
A construção narrativa, ainda que inserida no campo da ficção, não é neutra. Ao associar crime organizado a uma pauta legítima da sociedade, cria-se uma perigosa zona de confusão moral.
Não se trata de censurar a arte, mas de reconhecer seus efeitos. O tráfico de drogas é atividade criminosa grave, estruturada e violenta. Não há espaço para romantização, nem mesmo simbólica.
Quando o ilícito passa a ser apresentado sob uma lente de afirmação social, o risco é claro, a banalização.
Paralelamente, um episódio envolvendo a identificação de astronautas em cobertura midiática reforçou a percepção de que, em certos momentos, a narrativa tem se sobreposto à realidade factual. A repórter se refere aos 4 (quatro) astronautas como sendo um homem (americano), um negro, uma mulher e um canadense. Não sabemos se o negro não é homem. E o canadense não é homem.
Ainda que se alegue equívoco, o efeito prático é a erosão da confiança. E sem confiança, não há comunicação sólida, tampouco democracia madura.
Nesse contexto, é inevitável mencionar o papel de grandes formadores de opinião, como o Grupo Globo.
A responsabilidade é proporcional ao alcance. Informação e entretenimento, embora distintos em essência, dialogam na formação cultural da sociedade. Quando ambos caminham na mesma direção ideológica, o impacto se amplifica.
A crítica aqui não é ideológica, é principiológica. Lei, ordem, legalidade e moralidade continuam sendo os pilares que sustentam qualquer sociedade funcional. Não são conceitos ultrapassados, são fundamentos permanentes.
O desafio contemporâneo não está apenas na criminalidade em si, mas na forma como ela é percebida, retratada e, por vezes, suavizada. Nomear corretamente os fatos é o primeiro passo para não perdermos o referencial do que é certo e do que é errado.
Quando a linha entre realidade e narrativa se torna difusa, o risco não é apenas cultural. É institucional.
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