O espelho da pequena corrupção. Prejuízo de milhões para a Coca-Cola



A notícia sobre consumidores violando rótulos de garrafas para retirar figurinhas promocionais da Copa do Mundo revela algo que vai muito além do prejuízo da empresa. Ela expõe uma questão cultural que raramente queremos enfrentar.


Afinal, como exigir integridade das altas autoridades da República quando parte da sociedade naturaliza pequenas fraudes do cotidiano?


Não estou afirmando que corrupção seja sinônimo de brasileiro. Seria uma generalização injusta. O Brasil produziu exemplos extraordinários de honestidade, trabalho e civismo. Mas também é verdade que o chamado “jeitinho” muitas vezes é romantizado. Furar fila, fraudar promoções, adulterar documentos, burlar regras ou levar vantagem indevida são condutas frequentemente tratadas como esperteza, quando na realidade representam a mesma lógica moral da corrupção institucional.


A diferença está apenas na escala.


O cidadão que rasga uma embalagem para pegar uma figurinha sem pagar o produto não causa um rombo bilionário aos cofres públicos. Mas adota exatamente o mesmo raciocínio de quem desvia recursos públicos: obter uma vantagem que não lhe pertence.


Por isso, a corrupção não nasce nos gabinetes de Brasília. Ela chega lá depois de percorrer um longo caminho social. Surge quando a transgressão é tolerada, quando a desonestidade é relativizada e quando a vantagem pessoal vale mais do que o respeito às regras.


Se a corrupção estrutural das grandes instituições causa indignação, a pequena corrupção cotidiana também deveria causar. Ambas pertencem à mesma árvore. Apenas produzem frutos de tamanhos diferentes.


Uma sociedade verdadeiramente ética não combate apenas os grandes escândalos. Ela também rejeita as pequenas falcatruas que, silenciosamente, ajudam a construir o ambiente onde os grandes escândalos prosperam.


Porque a integridade de uma nação não é medida apenas pelo comportamento de seus governantes. É medida, sobretudo, pela conduta diária de seus cidadãos.


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