Quando R$ 141 mil por mês parece pouco: a distância entre Brasília e o Brasil real

Durante o Fórum de Lisboa, o ministro do Superior Tribunal de Justiça, Mauro Campbell, afirmou que não recebe remuneração compatível com a relevância e a quantidade dos processos que julga. Segundo ele, já ultrapassou a marca de 130 mil recursos julgados em 18 anos de atuação e deveria receber um salário à altura do trabalho que presta ao país.

A declaração ganhou grande repercussão após dados oficiais do próprio STJ revelarem que o ministro recebeu aproximadamente R$ 141 mil em abril, R$ 122 mil em março e R$ 127 mil em fevereiro, valores que superam amplamente o teto constitucional do funcionalismo público.

Ninguém discute a importância da magistratura nem a enorme responsabilidade dos ministros das Cortes Superiores. Julgar milhares de processos, muitos deles com impacto nacional, exige conhecimento, dedicação e compromisso institucional.

Mas a questão não é essa.

A questão é a mensagem transmitida à sociedade brasileira.

Em um país onde milhões de trabalhadores sobrevivem com um ou dois salários mínimos, onde aposentados contam moedas para comprar medicamentos e onde famílias inteiras enfrentam dificuldades para colocar comida na mesa, afirmar que R$ 141 mil mensais não representam uma remuneração adequada revela um preocupante distanciamento da realidade nacional.

Autoridades públicas não precisam apenas conhecer as leis. Precisam compreender o país que servem.

Palavras têm peso. E quanto maior o cargo ocupado, maior a responsabilidade sobre aquilo que se diz.

O Brasil espera de suas instituições não apenas excelência técnica, mas também sensibilidade social. Afinal, a legitimidade do poder não nasce apenas da Constituição. Ela também depende da capacidade de seus agentes compreenderem a vida real dos cidadãos que sustentam o Estado com seus impostos.


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